• Matheus Lopes Quirino

Um prólogo solto, a história de uma estrela

\\ CADERNO DE ANOTAÇÕES

Corpo padecido, vermes de barriga cheia, mas a ideia fica. Nasce uma estrela com alma a reluzir como um botão de pérola na manta que Deus costura e cobre o mundo

Por Matheus Lopes Quirino


Eu não cheguei a conhecê-la, mas logo vi pelos olhos dele o quanto a amava. Logo o vi entrando pela porta da cozinha, triste, como se houvesse perdido a guerra, ou como se visse de longe a procissão que seguiu o corpo dela até a necrópole encantada. Sentou-se à mesa de madeira velha, puxou uma cadeira bamba pintada de azul. Estava sonolento, os olhos, a cor do céu das três da tarde, divagava enquanto a chaleira fervia tardiamente um placebo para afagar os pulmões frios naquelas horas.


Ele rodopiava uma colher encoberta por azinhavre o chá frio, quase adormecido, com os olhos meio fechados enquanto arfava baixinho. Não precisei fazer pergunta alguma, de súbito a frase mais tensa que ouvi em minha vida: “Ela se foi”. Naquele momento, um relâmpago atravessou minha espinha e, como se estivesse à beira de um penhasco, sofresse uma queda brusca ao fundo do desfiladeiro, mas lá não morri, continuei vivo vendo uma legião de corvos gralharem pelos desfiladeiros escuros. Talvez fosse o tal Vale da Sombra da Morte.


Tirei o chapéu, então, para prestar condolências, pegar em suas mãos frias. Abaixei minha cabeça perto da dele, a mão repousou no rosto, estava respirando com força agora, pele oleosa e quente, como se tivesse corrido a São Silvestre ou a maratona de Seattle. Naquele momento, percebi que existe amor verdadeiro, eles vão, mas não morrem. Corpo padecido, vermes de barriga cheia, mas a ideia fica. Nasce uma estrela com alma a reluzir como um botão de pérola na manta que Deus costura e cobre o mundo. Ela está em um dos vales do céu, como um lobo solitário que uiva de alguma das florestas frias de algum país que neve.


Ficamos na cozinha nos afagando pela noite, era preciso. Escutava os pingos da pia ressoarem como uma marcha fúnebre, cujo único sax se mantém de prontidão a velar um pobre corpo noite adentro. O silêncio maximiza tudo, aquela cozinha, nem grande, nem pequena, de repente se transforma em uma sala de cinema que exibe o filme de sua vida. Um olhar de canto desconcerta a boca triste, revelando-se ali, em negativo, uma memória que muito custou a sair, por isso é rara. As latas de filme terminam a exibição no dia seguinte, quando já estamos no mundo dos sonhos, juntos, apoiados um na solidão do outro a lamentar a perda.

*

O sol nasceu em um dia triste, cumprindo assim sua obrigação. Mais um trabalho titânico, quem sabe como a morte, se vendo obrigada a levar tantos, que, como numa partida traiçoeira de cartas com algum anjo, perde e projeta uma peste para pagar suas dívidas. De repente, estamos naquela cozinha rondados por alguns anjos travessos, levanto-me assustado, ele dorme com a cabeça apoiada no meu braço esquerdo. Eu o amo das profundezas das florestas e desfiladeiros, sou o próprio céu, o lobo que late, a estrela que cai, o botão perdido por deus em algum canto daquele casebre. Na cadeira de balanço, repousa um gato que nunca vi, mas é como se ali, de propósito, fosse o felino um anjo caído, velando conosco o silêncio de um dia que não poderia ter nascido. Olho para os lados, reconheço fogão, geladeira, cadeiras, a toalha bordada com a linha da vida, cuja agulha do coser machuca; seu retrato está em cada ladrilho do chão, azulejo da parede, ainda ouço suas mãos mexendo nos tecidos, escuto a máquina de costura, a de escrever… ai que saudade dela…

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