• Bruno Pernambuco

[MiTsp 2020] Uma conversa com Tiago Rodrigues

\\ TEATRO

Eu espero que a apresentação de um espetáculo lembre da distância que existe entre o lugar onde ele foi concebido e a realidade em que ele é apresentado, mas possa também lembrar da proximidade que existe entre todos.

Por Bruno Pernambuco


Ator, diretor e dramaturgo, Tiago Rodrigues elaborou, ao longo de sua carreira, espetáculos que transitam por diferentes abordagens, diferentes formas de interagir com o público, diferentes tratamentos de seu material, sempre com um modo de fazer teatro: coletivo, democrático, aberto. É através da assembleia, da multiplicidade de ideias e de vozes, que é feito um espetáculo seu.

Atualmente, Tiago é diretor do Teatro Nacional Dona Maria II, em Portugal. Em seu currículo, destacam-se obras como Antônio e Cleópatra, Como Ela Morre e Bovary, além de By Heart e Sopro, espetáculos trazidos por ele para a MiTsp (Sopro não chegou a ser apresentado na mostra, devido à suspensão das atividades no Centro Cultural Fiesp). Aqui, fica o registro de uma breve conversa de Frente&Versos com o artista, a respeito de sua obra, de sua relação com a literatura (nossa especialidade) e de suas atividades no Brasil.


Frente & Versos: Conte um pouco sobre a sua relação com a literatura, e sobre a sua decisão de trazer isso para o palco com By Heart


Tiago Rodrigues: A minha relação com a literatura é múltipla, é tanto como leitor quanto como artista de teatro. Uma das razões pelas quais comecei a fazer teatro é essa possibilidade de estar em contato com autores de diferentes épocas, diferentes contextos e poder, a partir disso, estar em contato também com os atores.


Nos meus espetáculos a literatura não é só motor, é também sujeito da obra. Com By Heart, não falo apenas da literatura em si, mas da relação que se pode ter com ela, e de como essa pode ser uma relação de resistência.




F&V: Conte um pouco sobre a sua forma de escrever para teatro, e sobre a oficina (Um teatro que seja nosso) que você coordenará na MiT.

Rodrigues: A minha oficina na MiT é uma porta entreaberta para a forma como eu trabalho e como faço teatro. Escrevo em colaboração com os atores. É na verdade um modo ancestral de fazer teatro, não tem nada de inovador. É do acaso da sala de ensaio que sai o texto, eu não sou um daqueles que escrevem em casa, isolados. Para mim, isso é uma resposta a quem faz teatro comigo, e a escrita é a minha forma de me corresponder com os atores.


Às vezes trabalhamos partindo de uma ideia, de algo que se quer dizer, mas isso é o ponto de partida para um trabalho coletivo. Quando, com o grupo do Teatro Nacional (o Teatro Nacional Dona Maria II, em Lisboa, do qual Tiago é diretor), trabalhamos dessa forma, eu tento, todo dia, reescrever o que é a verdade daquele texto, a sua forma definitiva. O processo funciona como uma correspondência amorosa. A cada dia eu chego com uma carta de amor dirigida aos atores, e as cenas que eles criam dessa proposta são as respostas deles à minha carta.



F&V: Essa é sua primeira visita ao Brasil? Qual é seu sentimento em trazer essas obras para o país?

Rodrigues: Eu já estive no Brasil, apresentando espetáculos, mas desde que assumi a direção do Teatro Nacional ainda não tinha tido a chance de voltar para o país. Estamos muito felizes de apresentar no Brasil, e a nossa vontade se mistura com um desejo antigo do Teatro Nacional, de estar presente aí. Além disso, eu acompanho e admiro o trabalho da MiT, e para mim é especial estar presente nesse contexto.


Tanto Sopro quanto By Heart são espetáculos que rodaram o mundo, apresentados em diversos países. Eu espero sempre que a natureza de um espetáculo possa renovar-se continuamente, e que cada apresentação seja uma porta aberta para o presente. Eu espero que a apresentação de um espetáculo lembre da distância que existe entre o lugar onde ele foi concebido e a realidade em que ele é apresentado, mas possa também lembrar da proximidade que existe entre todos. Queremos mostrar uma proximidade Lisboa e São Paulo mas também entre Lisboa e Washington, Moscou ou Paris, para citar alguns lugares em que apresentamos By Heart


Também é especial, para nós, apresentar esses espetáculos no Brasil, pois são obras que falam da potência da arte e da importância que ela pode ter dentro de uma vida pessoal, e de como ela pode ser um espaço necessário de pensamento livre. Sabemos que, ao estar em São Paulo, estamos em um certo contexto histórico da sociedade brasileira, e queremos deixar nosso apoio para que a arte no Brasil possa continuar a ser um espaço democrático e de pensamento livre.


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