• Bruno Pernambuco

Uma lata sob o sol

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Manoel de Barros é, por excelência, poeta indizível. Caminhando por seus poemas, se encontra que não há nada a colocar a respeito deles, apenas apreciar a sua maestria.

Por Bruno Pernambuco

Imagem: Marcelo Buainain

Artice de um poeta já maduro, Retrato do Artista Quando Coisa é talvez a obra mais verdadeira de Manoel de Barros, aquela que mais intimamente fala do homem que está por trás do papel e do insuficiente título de autor, e que o faz mais absolutamente se dirigindo ao geral, e negando esse mesmo papel, do homem separado da coisa, para aos poucos redescobrir - e, além disso, refazer - a individualidade a partir da sensação única e da memória, que alimenta o relato da natureza. É talvez o livro do qual mais emana o apogeu do chão, como Millôr Fernandes descreveu a escrita do autor, e nisso é uma leitura que se faz presente, envolvente, que traça rimas a partir de itens que não conversam, semanticamente segregados. Uma nova sintaxe floresce permanentemente no livro, e traz consigo a sensação de um encontro mais fecundo com as raízes da própria língua. A própria estrutura em que são organizados versos da obra também deixa claro que que não tem tempo a perder com imposições sem sentido, e é assim que consegue expressar uma introspecção (que, simultaneamente, se volta para o mundo, entendendo que apenas se faz conforme se transforma, e que seu encontro é esse estar diante das coisas, na visita que simultaneamente nunca é completa e nunca deixa de ser inteira) e uma reflexão que acendem a alma, a trazendo assim para um mundo que parece familiar, e que colore com novas histórias, línguas e viagens essa emoção do horizonte refletido em lágrima que começa a germinar no olho.


Manoel de Barros é, por excelência, poeta indizível. Caminhando por seus poemas, se encontra que não há nada a colocar a respeito deles, apenas apreciar a sua maestria. Retrato do Artista Quando Coisa é, também, uma invenção linguística tremenda, uma constante reversão de sentido que parece desvelar uma verdade do português, e trazê-lo para a sua casa, o seu lugar mais radiante. Essa é uma das marcas que mais profundamente difere Manoel de seus contemporâneos (muito embora, com noventa e sete anos de vida e mais de setenta de carreira, a muitas gerações caiba esse título): a sua revolução das palavras nunca é estranha, nem desagradável ou ruidosa, como foi a deliberada intenção de tantos outros autores que buscaram trocar as regras estabelecidas. As palavras novas de Manoel são aquelas que sempre existiram, e que precisam apenas de uma pequena lembrança para mostrar tanto.

Esse retrato oblíquo denuncia outra marca fundamental para seu autor: a fotografia. Sem dúvida, a poesia de Retrato do Artista Quando Coisa parte de uma construção imagética que exige um domínio muito apurado da técnica, e que é símbolo de uma maturidade poética, de um trabalho muito demorado e constante das próprias imagens, e daquele universo que se quer desenhar. Ver um desses retratos de Manoel de Barros, em qualquer um de seus livros, é ser imediatamente convidado àquele mundo e às suas memórias, como se o passado fosse despertado através dos olhos. Enxerga-se uma ilha linguística e uma vida nela, que habitamos conforme habitamos as nossas próprias ilhas. Manoel nunca explicitamente deixa de falar da juventude, nem esconde que, nesses relatos da memória, é jovem, mas ser coisa é condição fundamental para o artista, pois não o ser, não levar sua palavra ao ponto das árvores, não amanhecer e ter passarinhos em suas folhas, é não estar em linguagem. O artista é na verdade aquele que está perdido, em meio aos ensinamentos das pedras, das árvores, e dos musgos. Por que é ele teria de transformar a manhã em linguagem, os passarinhos e o rio em linguagem, em vez de simplesmente coisar-se, como eles? A resposta passa pela memória, pela ilha linguística, por Bernardo, pela ternura do olhar de menino, que vê a tarde se agachando na grama. Por aquilo que faz de cada coisa ser quem ela é.

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