• Bruno Pernambuco

Uma leitura feliz

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Múltipla, e ao mesmo tempo com uma voz muito reconhecível que a atravessa, a antologia de Wislawa Szymborska é um presente para se esbaldar- e continuamente, pois nunca deixa de ser novo.

Por Bruno Pernambuco


A poeta polonesa Wislawa Szymborska. Foto - Divulgação/ Folha de S.Paulo

Este texto é uma grande trapaça. Mudando- só de leve, assumidamente- as regras da celebração pensada pela redação para o Dia do Livro, não falo aqui de um livro marcante, mas de dois- a seleção poética de Wislawa Szymborska feita pela Cia. das Letras, cujo encontro (no volume Poemas, de 2011) me trouxe um primeiro amor, um gosto em ler e ouvir declamados seus poemas, cheios sempre, para mim, daquelas pessoas e momentos queridos que trouxeram essa apresentação, e cujo reencontro (com Um Amor Feliz, de 2016) passou como um terremoto em mim, como um abalo que fez ver aquilo que estava à minha frente. Como aquela intensidade que por um instante faz saber que o acontecido é aquilo que não aconteceu, e que tudo isso se condensa num calafrio: encontrei aquilo de que sem saber me lembrava.


É muito difícil para mim escrever algo sobre os poemas de Wislawa Szymborska. É impossível falar sobre Recital da Autora ou As Três Palavras Mais Estranhas, em Poemas ou Vida Difícil com a Memória ou O Primeiro Amor, em Um Amor Feliz, pois não consigo dizer o que eles representam para mim, além de um espelho. É bem verdade que muitos poemas me trazem admiração, e uma sensação de reverência, e de espanto pela esperteza, e pelo quanto trabalham essa forma poética de um jeito original, mas uma leitura de Wislawa é sempre uma experiência muito diferente dessa admiração fria. É algo muito mais próximo, mais humano, mais gentil, que desperta um calor que é parte da própria vida. Poderia se falar em uma espécie de perfeição, um trabalho tão apurado da técnica que é capaz de trazer essa impressão de absoluto da forma, uma poesia em que se parece ver apenas a verdade, e não a ação do autor, e tudo terá seus méritos, mas não é bem isso que eu sinto, e, sendo sincero, isso se assemelha mais ao oposto do que eu quero realmente dizer. A leitura desses poemas é simplesmente um daqueles encontros raros, capaz de fazer sentir-se em casa consigo mesmo.


Um poema de Wislawa Szymborska é sempre um presente agridoce, pois ao mesmo tempo em que é capaz de levantar qualquer defunto, tirar de qualquer delírio e trazer de volta para a vida, para a presença do sentimento, é sempre difícil a lição de que eu estou aqui, e não na página, e não sou aquele poema que leio. Esse entremeio da vida é um jogo delicioso, rico e infindável, e é impossível não imaginar a autora se divertindo tremendamente com essa brincadeira, tão serena quanto nas capas dos volumes que inspiram esse texto. É por isso, também, que todas essas palavras pesadas soam tão inúteis-não há como não se divertir junto da mulher que fuma o cigarro, ou brinca com os óculos. Essa é uma vitalidade que convida a deixar tudo que é desnecessário- tudo quanto não se tem dinheiro, e é muito difícil, é longe demais- e que lembra o quanto essa alegria é às vezes triste, e emocionada, e enlutecida, e reflexiva, e contemplativa, e memoriosa- afinal não existe alegria que seja só alegria. Múltipla, e ao mesmo tempo com uma voz muito reconhecível que a atravessa, a antologia de Wislawa Szymborska é um presente para se esbaldar- e continuamente, pois nunca deixa de ser novo. O encantamento e o desespero, que a poeta enxerga em si no maravilhoso Céu, nunca deixam os olhos do leitor que se dispõe a visitar a sua poesia, e são marcas, também, de uma leitura a se levar para a vida toda.

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