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Uma rodada para a democracia

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O semanário satírico O Pasquim foi um porre para a ditadura e uma alegria para a imprensa alternativa.


Redação, Frente & Versos

Imagem: reprodução

Embora seja pretensioso demais nomear “A mais boêmia das redações” – haja vista os pós-expedientes do metiê –, a competição é marcada de forma acirrada por pelo menos uma dúzia de periódicos, tão boêmios quanto seus integrantes. Da grande imprensa à contracultura, naqueles anos de chumbo, sobretudo. Mas, não se tratando de “pós-expediente” nenhum, embora houvesse uma redação fixada em Botafogo, mais precisamente na rua Clarice Índio do Brasil, era no Antonio’s bar, na Av. Mem de Sá, no bairro da Lapa, onde o periódico pegava fogo em horário comercial e, como tudo se transforma, nascia pronto para incendiar não só o Rio, mas o Brasil.


E foi justamente em 69 – data mais simbólica impossível – que o semanário nasceu pelas mãos de Tarso de Castro, Jaguar, Sérgio Cabral, Claudius e quem mais viesse pendurado na conta de Tarso no Antonino’s. Os caretas não tinham vez no periódico, por vezes chocante, como mostra a capa do exemplar abaixo, nº 428:

Capa Pasquim, ano IX - nº 428 (imagem: reprodução).

A redação, como costuma-se dizer no linguajar coloquial, era “13”. Para sorte dos leitores, seus integrantes: subversivos, desbundados, amalucados, irresponsáveis, mas nem por isso menos brilhantes (talvez até mais). A clientela logo aprovou a série de extravagâncias do tabloide e, progressivamente, o semanário chegou ao seu auge ainda no primeiro ano, distribuído por gorda tiragem de duzentos mil exemplares.


Além da excelsa sacanagem deliberada e intelectual, o Pasquim procurava protestar de forma ácida – quando não lisérgica, em ipsis litteris. Em cada edição o teor político se diluía em cultura, arte, crítica social; e, claro, sob estruturas não convencionais para temas tão essenciais, via colunas sociais, de humor, opinião, caricaturas e as antológicas entrevistas, a seu modo, por boas conversas de boteco.


A cada edição (ou coquetel) seus jornalistas e colaboradores (ou barmans) se expunham entorpecendo os censores com sofisticadas artimanhas. O jornal, semanalmente, ia às bancas. E o estrago já estava feito. Os milicos ficavam de ressaca, até o próximo número. Assim dado o iminente sucesso, as consequências não tardaram. Em novembro de 1970 boa parte da redação do Pasquim foi levada pelo DOI-CODI. E coube aos que ficaram – dentre eles Millôr e Henfil – dar prosseguimento ao projeto. A peteca não caiu. Já em 1971, com a soltura de seus membros, o Pasquim se reestruturava, no espírito buliçoso de sempre.


Depois de uma série de mudanças de direção de redação e problemas financeiros, no final do ciclo do Pasquim, em medos dos anos 1980, a tiragem feneceu, paralelamente ao final da ditadura. Os integrantes se desentenderam, dentre eles o próprio Tarso de Castro, que debandou para a Folha de S. Paulo. Os outros arrefeceram-se entre si, Ziraldo e Jaguar se distanciaram por política. E, mesmo sob enérgica inconstância, até seu fim em 1991, as páginas do Pasquim estiveram abertas para primorosas colaborações, e deu no que deu.


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