• Matheus Lopes Quirino

Uma vida no aquário

\\ ENTREVERES

E das noites escuras e águas turvas, quando sem zelo minha dona vacilar atento ficarei às garras do gato; meu algoz

Por Matheus Lopes Quirino


Um dia vou bater as botas, mas talvez eu volte como um peixe, mas não esses de mar. Aquele peixe seu, roxinho ou dourado, à beira da estante, num singelo aquário oval, mal ilumiado por um abajur art decó, da década de 1970. E como peixe, na feita da volta, talvez eu fique tão entediado dentro do aquário que, mesmo sendo peixe, eu pense em arrumar uma companhia para aqueles momentos de solidão entre as estrelas (do amar).


Dando voltas ao redor dos cascalhos, escondendo-me, de rápido gatilho, atrás de uma planta de plástico, quando olham para mim, sorriem e balançam o aquário. Que diacho! Talvez eu fique todo bagunçado, tonto, desorientado por uns três dias. Só daí eu voltarei a me mostrar, me despir aos olhos humanos, pela transfiguração não menos humana naquelas ínfimas escamas âmbar, ou seja lá qual pele me travestir daqui uns bons anos.


Sei que, talvez, claro, também haverá um farol de pedra ou vinil, com um pequeno arco que sirva de portal, mera decoração. E dali eu fique ressabiado em entrar, engordar e me entalar, conforme minha noção de proporção se equipare aos meus pensamentos – tão bagunçados, pois serei peixe, não matemático.

E das noites escuras e águas turvas, quando sem zelo minha dona vacilar (pressinto que será uma mocinha), atento ficarei às garras do gato; meu algoz de pelos, gigantão, enfastiado de sardinhas, doido por um original, que porventura serei eu, dando sopa, ali no aquário.


E por sorte, eu não temerei o vacilão, pois uma tampa de vidro estará entre a vida e a morte, ludibriando o gato e confirmando minha astucia como peixe, indestrutível. Não sentirei calor nos dias de verão.


Talvez eu me acostume ao pacato. Ao ficar ali observando, conforme os anos passarão, já na segunda prateleira da estante, ao lado dos empoeirados livros de ficção científica, assistindo aos requintados jantares dos ácaros, despercebido, na segunda prateleira, perto de um VHS esquecido por um irmão mais velho.


Dali do alto, haverá dia em que não serei alimentado, pois minha dona andará com a cabeça nas nuvens. Roqueira, talvez ela seja. E eu me empanturre das sonatas ríspidas, metais e cuícas elétricas, mas também fique encantado, com o coração cheio de alegria, ao ver aquela tímida menina soltar seus primeiros turpilóquios quando arranjar um namorado, transcrevendo, pulsando, uns poemas e heresias, enquanto as trevas da noite trazem a ela um alento – como trouxe a mim, nesta vida –, naquele tímido espaço alumiado entre uma lamparina, seu diário e aquele aquário velho.


Eu estarei ali por um bom tempo também. Aproveitarei. Sem demasiadas obrigações, no ócio cáustico, passivo, tentando escrever pelas bolhas de ar: guelras. Temerária frustração.

Sei que certo dia ganharei um companheiro de aquário. Juntos assistiremos às brigas de casal da menina, aflições colegiais, notas baixas, bizarrias hormonais e a primeira transa, com seus sussurros e a frustração do dia seguinte. E ela vai levantar e se culpar, como boa menina, contudo, tendo a certeza que aquele será o primeiro passo de um mar de ilusões, agitado por correntezas de paixões lascivas, amores submersos e cavalos-marinhos.


Observarei seu cotidiano naquela viagem noturna pelo quarto, pois tenho certeza que ela só voltará no período da noite pra casa, quando repousará. Sentirei falta das primeiras semanas em que dialogamos, olho a olho, ela ali, menina de tudo, do outro lado do vidro – “em outro mundo” –, fitando-me, mesmo sem soltar uma palavra; toda delicada e atenta. Pois quando eu já estiver deitado com os olhos esbugalhados, entre todos os cascalhos daquela relva temática, voltarei a outras águas, esquecendo-me que um dia estive peixe.


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