• Matheus Lopes Quirino

Viagem sentimental à Babilônia

\\ ENTREVERES

Pensa em coisas antigas, em vitrolas e brilhantinas. Mas vive engalfinhado com uma corista, típica Tchekoviana do bairro baixo que desce de bicicleta. Ele dá voltas ao redor do quarto

Por Matheus Lopes Quirino


Ele sai de casa tarde. Chega tarde. Dorme tarde. Usa coturnos ingleses, masca chicletes importados. Anda de óculos escuros clubmaster, volve. Não dirige. Anda de táxi e sempre chega atrasado. Ele tem muitos amigos, é popular, tem a madrugada como companheira. Não para quieto, a perna a tremer, vive sempre chapado, se não por amor, por lisérgicos involuntários – quase a mesma coisa. Ele está curvado, de pernas cruzadas, observando o amanhecer que, de longe, acena do fundo das montanhas que cercam a cidade.

Parece estar sempre tudo bem. A fala mansa combina com os olhos meio caídos, as pupilas dilatadas, o cabelo enrolado e a camisa branca suada, quase transparente. Ele toca em uma banda de garagem aos fins de semana, está de saco cheio do futuro. Isso lhe incomoda. Tem procurado referências no Rock Progressivo, na Movida Madrileña, na Nouvelle Vague, na Pop Art, no Indie, no Movimento dos Sem Terra, na literatura russa, espanhola. Ele compra cigarro de palha avulso na banca de jornal.

Outra vez, anoitece. Ele está em seu quarto só de jeans azul americano, com um lápis 2b laranja na boca a rabiscar um caderno sem pauta, encadernado com couro. Ele dorme no processo, acorda suado e se joga num banho frio para despertar. Já é madrugada e ele precisa sair de fininho para não acordar os pais. Pula a janela do quarto, a rapaziada está a sua espera não muito longe dali. Ele tem cinquenta pilas no bolso para aproveitar a noite.

Esse jovem sonha durante toda a noite. As coisas mais improváveis e indizíveis. Ele se mexe e, de repente, acorda com a visão perfeita do teu próprio corpo, flutuando no quarto, como se uma magia estranha chegasse se apoderando de sua consciência. Um, dois, três. Ele conta, respira. Aperta os olhos e as têmporas. Ele precisa acordar. A noite é fria e o sono pesado. Na manhã seguinte só resta a ele dar um nó mais firme no coturno e ir andando...

Ele está num carro conversível velho; está em um beco no centro da cidade, trafega livre pelas gangues, sempre com o sorriso aberto. Ele também está nos terraços, dentro dos quadros, das fotografias. No fundo das xícaras de chá e café. Ele está na capa dos livros, nas porcelanas, nos rótulos de bebidas gasosas, nos encartes de cds, em outdoors, nas propagandas de seguros de vida, de postos de gasolina, de bolsas de grife, de cuecas, de comidas rápidas, de grandes empreendimentos.

Ele detesta dizer o indizível. Já o não dito, prefere. Gosta de dançar às quartas-feiras. Não liga para pentes & conchavos. Há! Tenho a impressão que ele sabe tudo. E ele, impreciso, bem, duvida. Duvida de mim. Mas voltando a ele, ele está aqui, nesse exato momento. Não se assuste, mas nesse momento você ouve sua voz. Ele sobe um grave, o ar fica ligeiramente doce, como se um jato de perfume cítrico se liquefizesse no ar.

Pensa em coisas antigas, em vitrolas e brilhantinas. Mas vive engalfinhado com uma corista, típica Tchekoviana do bairro baixo que desce de bicicleta. Ele dá voltas ao redor do quarto, tentando acender uma luz sem interruptor ou botão. A droga da ideia não surge. Ele lê um pouco e duvida de si, de todos no mundo. Escuta músicas pesadas, come pizza requentada da segunda-feira. Já é quarta mesmo? Mas que dia é hoje?

Sai pelas ruas do centro da cidade, dá caô nos porteiros e sobe ao terraço dos prédios na procura de um João de Burgos, que todos pensam conhecer. Mas ele não existe. O João de Burgos é uma invenção. Como foi o João Gostoso. Pensou em procurar pelo João Gostoso, mas, pensando bem, poderia lhe arranjar encrenca um sobrenome desses.

Falando em João, ele lembra do João de Barro, do João do Patrocínio, do padre João, do João Ternura, do João José, da Maria João, do Juca, que era João, do Jão, que não cantava, nem nada, só era o João mesmo, e o Osvaldo o chamava de Jão, porque o Osvaldo é o Osvaldo, e em matéria de João ele não entende nada. Lá em cima, com a cabeça nas nuvens, ele vê os espigões crescerem na cidade. Lá em cima, ele vê, esquece a história do João. Agora é ele mesmo ali. Até descer depois de um tempo insuspeito.

Ele está nas ruas, passando despercebido por tantos, em meio a multidões. Balança os cabelos pelo ar. Para um instante e dobra uma esquina. Incrivelmente, ele segue fabuloso e ritmado. Canta quase sussurrando uma música que quase ninguém conhece. Quase ninguém. Exceto: ele conhece. Ele sabe. O rapaz o convida com um sorriso meio aristocrático, meio mundano, quase como se um amor denunciasse sua permanência na terra. E por ele, só por ele, sim, fosse nas nuvens impresso um selo de poeta, um clarão, uma evidência insuspeita, uma certeza bela, uma consequência sabida, uma inciência vivida, algo para recordar. Como o rapaz que anda por essas ruas.

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