• Matheus Lopes Quirino

Visitas noturnas

\\ ENTREVERES

Começou-se a mapear o local. Feito como se mapeava o campo minado antigamente. Os três puseram-se em busca daquela mal-vinda visita

Por Matheus Lopes Quirino


Numa dessas noites abafadas, das que antecedem o verão, sem necessariamente a estação bater à porta de chinelos rider e bermudas floridas, foi o cronista quem bateu – tocou a campainha. Também sem chinelos e bermudas, mas não nu. De calças, não propriamente curtas, embora estivesse atabafado e resfolegante, pois o destino havia aprontado: o ônibus de viagem saiu antes da hora. E os ponteiros o detiveram na Paulicéia Desvariada por mais uma noite.


Mas nem por isso houve tamanha frustração, tendo este escriba menor se aboletado em melhor confraria, pois neste aquém crônico vale tudo para dar ao leitor-amigo algum causo digno – ou, também, boas vezes, indigno. Mas o verão tem suas surpresas – algumas voadoras! E este cronista então, desatinado, zanzou atrás de um pernoite oportuno, pois a chave de casa estava sabe-se lá onde.


*


Perto da Vila Madalena, disk afeto. Uma espécie de medida, nada extrema, talvez desmedida, beirando a “perobice” – este espírito embebido no óleo amadeirado facial.

Pede-se, então, a um amigo um quarto por uma noite e, nesse âmbito do revés, é tendencial cordialidade, pois o mundo é muito grande, sendo a rua menor ainda, como diria Drummond. O cronista é espaçoso. E foi-se ele ao encontro marcado, sob negro manto da noite, observando pelo caminho uns besouros pretíssimos subirem as paredes de um jeito tanto engraçado quanto incômodo para a maioria. Essas bem-vindas pragas.


E amigos são para essas coisas. Ceder o ombro, e, vira e mexe, um sofazinho para os repentinos encontráveis do afeto. Dessa leva, valem-se os atrasados, meio perdidos, mau programados, chatos e sem noções – mas, sem dúvida, com todos os pormenores justificáveis em anos a fio. E mesmo que os pejorativos caibam ao mais afiado tocador de campainhas (e dormidor de sofás), é pela intimidade, pelo abrir a geladeira sem perguntar, pelos causos íntimos trocados e danças constrangedoras que, assim, ganha-se a chancela do aconchego debaixo das asas de quem lhe quer bem.


E são bem-vindos tais ninhos para repousar o esqueleto, em caso curioso literário, tratando-se aqui, ainda mais, de certa silhueta escanifrada. E é bom escutar um “Entre! Mas, por favor, deixe os sapatos do lado de fora”. À mercê de visitinhas noturnas, dessas de diminutivo, carapaças e pernas finas. Os sapatos não têm direito de reclamar, sendo alguns já munidos de próprio repelente: o chulé. À sala de tv.


O cronista, a amiga de ombros fraternos e sua mãe estavam proseando, entreolhando o jogo de futebol americano que a televisão dava àquelas horas tardias. E eis que a colega de primeiro escalão, fitando outras coisas mais interessantes – como o  porcelanato marrom do chão, em transe – percebeu, assustada, e por um “ahhhhhh” tirou os pés do chão rumo ao encosto da poltrona, na defensiva, contra aquele pantanoso quadrante terrestre, somente no momento. Foi guerra declarada! De começo, os dois não entenderam, até vir, em alta sonora:


“Eu não piso onde a barata andou”, dizia a amiga, com voz trepidante. E o jogo agora era outro – e vale reiterar a “desinteressância” daquele Super Ball da tv – sendo os três, irremediavelmente, dali por diante, protagonistas daquele pesadelo Kafkiano. Literalmente, a barata havia sumido, enquanto se era forjado, sob o pavor das asas daquele inseto asqueroso, um plano de tropa de elite para eliminá-la.


E logo nós nos embarafustamos a buscar pela inimiga. Duas da manhã, os móveis eram arrastados. A amiga no sofá observando cada canto. Sua mãe, munida de um chinelo tomou a dianteira como a capitã daquela missão animal. E os móveis foram mexidos com zelo em demasia, pois as consequências de um passinho falso poderiam render, repentinamente, desagradável surpresa, bem embaixo de certos narizes. As baratas voam e são atrevidas.


*


Começou-se a mapear o local. Feito como se mapeava o campo minado antigamente. Torcia-se para que se fosse uma baratona só. Durante meia hora, revirando tudo, e nada… Sob passinhos tímidos e habilidosa inspeção em cada fresta da sala, a barata havia escafedido. Tornou-se lenda e rendeu-nos falsos passos de samba, pois a mínima impressão tida no chão daquele (in)cômodo era o suficiente para colocar-nos a pular feito pipocas de micro-ondas.


E o faixo estava quase quieto. Os xingamentos haviam se atenuado, quando a amiga avistou aquele “animal cretino/asqueroso”, em Ipsis litteris seu. E reproduzo cá, a seguir, outras alcunhas nada decorosas dirigidas à barata, merecidamente.


“Perto dos tacos de golfe, ao lado do aquecedor”. Deu-se a frase em uma tomada esganiçada pela jovem. Veio o clarão do celular para comprovação: era a própria cascuda! Imóvel. No pequeno movimento dos guerrilheiros, ela embrenhou-se na escuridão por trás dos armários.


“Cadê aquela vagabunda”, dizia a mãe, incrédula, em busca daquele bicho fugidio. Novamente, escarafunchou-se em tudo. Nada. E, pela terceira e última vez aquela “filha da puta” foi vista, zanzando na estrema (aquela demarcaçãozinha entre dois cômodos)  da porta da sala de jantar com a de tv. E o trio levou a tarefa como questão de honra. Até então, o time improvisado – composto pela mãe da amiga na frente, munida de astúcia e um aerossol, o cronista com a lanterna, e a amiga de olhos de gavião, com um chinelo para o mata-mata – precisava selar o destino daquela praga urbana.


Em instantes, vista pela amiga (que não usa óculos) a barata reapareceu, camuflada naquele piso. A amiga bateu em retirada em direção ao encosto do sofá, fervorosa “Ali, ali, ali”. Jogando-se no estofado como uma agente do 007, sem escoriações, mas alva de pavor. “E que alguém pegue esta cretina”, repetia, ela.


Disparou-se um jato de veneno. Como muitas vezes se leva na vida. E pobre barata. Ia resistindo aos golpes da insanidade daquela entorpecente artimanha barata, inventada justamente para pôr fim em suas missões miúdas, fortuitas e nojentas. Não sai caro, cara barata.


Ela não se entregava à nuvem mortífera que, de tamanha intensidade, a besuntou de um líquido branco. Se remexendo, abriu asas, e antes que decolasse, o chinelo cantou seu heroico fim.

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